Land Art

“Todas as coisas /
/ comunicam entre si a totalidade das suas formas”
Fiama Hasse Pais Brandão

Sabemos que a escultura se define na sua relação com o espaço. O escultor, ao trabalhar a obra que tem em mãos, não pode deixar de sopesar os limites espaciais no qual essa peça se inscreverá, para logo ser submetida ao olhar interrogante de quem a contempla e busca interpretar, à luz dos elementos que lhe sejam facultados.
“Mais do que cortar dentro do material, agora eu uso o material como o corte no espaço” (Carl André). Tal afirmação, na aparência surpreendente, deixa explícito esse movimento de apropriação espacial que o trabalho do escultor sempre supõe.
Não se trata apenas de dar forma a um bloco de matéria, o gesto escultórico implica a sábia administração de um espaço, que se contrai ou distende em função das mudanças subtis que lhe são impostas pela mão presciente do artista.
O primeiro notório conseguimento da obra de Maria Leal da Costa talvez seja esse, a capacidade de compor figuras plenas de sentido, que nos interpelam enquanto elementos de um espaço físico e conceptual. Apercebemo-nos disso ao percorreros terrenos da propriedade onde vive e trabalha quotidianamente: a Quinta do Barrieiro, um aprazível refúgio situado no seio do Parque Natural da Serra de S. Mamede.
Inúmeras peças da artista espalhadas pelos recantos da quinta suscitam leituras diversas do espaço, estabelecendo nexos intensos entre o natural e o construído, ao ponto de estes planos deixarem de ser apreendidos contraditoriamente.

A síntese assim alcançada remete-nos para conceitos caros à land art, nomeadamente o ênfase dado à dimensão artística da paisagem, a qual é entendida como espaço de intervenção e parte integrante da obra.
Poder-se-ia invocar, do mesmo modo, a noção de “campo ampliado” proposto por Rosalind Krauss, estabelecido com base no pressuposto de que as fronteiras entre escultura, arquitectura e paisagem se hão-de tornar progressivamente flexíveis, permitindo uma contaminação fértil entre estas disciplinas.
Uma ideia profusamente demonstrada no equilíbrio patente dos vários elementos que aqui se entrecruzam: arquitectura, escultura, natureza; num uníssono de sentido só possível graças à paciente e cuidada intervenção humana.
A partir desta ideia de espaço, podemos compreender melhor a dinâmica formal do trabalho de Maria Leal da Costa, na multiplicidade de estratégias e caminhos explorados ao longo do tempo pela escultora. Os passos dados no delinear de uma linguagem progressivamente mais pessoal, o amadurecimento de uma estética distintiva muito devem a esse profundo enraizamento num lugar onde a natureza impera, com as suas leis e ritmos particulares.

Carlos Baptista